terça-feira, 8 de março de 2016

Sombra e Luz


Por Surendra Narayan

Prontamente se faz uma distinção entre penumbra e sombra. É agradável sentar-se à sombra de uma árvore num dia de calor. Por outro lado, como dizem as escrituras, caminhamos através do "vale da sombra da morte", e nossos dias sobre a terra são uma sombra que desaparece. Sombra geralmente representa trevas indesejáveis e depressivas, obscuridade ou algo que é imaterial, irreal ou transitório. Em contraste, claridade ou luz (do sol) significa esperança, ânimo e alegria. “Levanta, brilha, pois a luz chegou”.

Sombra representa obscuridade do real, a natureza impermanente de tudo que compõe nossa vida normal no dia a dia – as possessões físicas e mentais que nos esforçamos em possuir,e o poder que muitas vezes é obtido em função da posição social ou econômica, seja na política, no aprendizado, na arte ou na religião, e que desesperadamente tentamos reter. Se essas coisas nos escapam, como deve acontecer algum dia, verdadeiramente tornamo-nos "criaturas miseráveis". Apegamo-nos a pessoas – esposa, marido, filhos, amigos, inimigos, num relacionamento de atração ou repulsão. Permanecemos presos a ideias, tradições e teorias, que acreditamos serem as únicas certas, e assim criamos uma diferença entre nós e os outros,  que têm suas próprias convicções.

Caminhamos através do "vale da sombra" porque essas posturas são a causa de dor ,medo, conflito e sofrimento.

O sofrimento chega até nós não porque Deus fez este mundo um local de trevas, mas por causa de nossas próprias atitudes. O germe da dor é implantado no momento que começamos a pensar e sentir em termos do estreito eu pessoal – de nossa própria felicidade separada e exclusiva. Não é preciso uma fé cega em Deus ou em qualquer plano divino para compreender que a dor jaz na atitude autocentrada, na dualidade, e na busca das sombras projetadas por nossos próprios pensamentos, na identificação do observador com o que é visto.

É por isso que tanta ênfase tem sido colocada sobre o altruísmo, em se arrancar a gigantesca raiz do eu e reduzi-la a zero. Essa ênfase no altruísmo é às vezes compreendida como supressão das emoções e da mente. Na verdade, a ênfase não está na negação compulsória, mas na reta compreensão.

Além da necessidade de modéstia, enfatiza-se a importância, o poder e glória de cada ser humano individual. "O homem é a medida de todas as coisas". Diz um Upanishad:

Isto sou eu dentro do coração,
maior do que a terra, maior
do que a atmosfera, maior do que
o céu, maior do que esses mundos.

Esses aspectos que nos reduzem à total insignificância e que ao mesmo tempo proclamam nossa grandeza não são contraditórios entre si. Referem-se a dois lados – à sombra em nossa veste e à luz interior que ainda deve brilhar. Somos nós que obscurecemos a luz e depois reclamamos da escuridão. Várias escrituras fazem referência a isto. A Bíblia declara que "a luz brilha nas trevas e as trevas não a compreendem". O Vedanta compara isto ao eclipse solar ou ao sol oculto por trás das nuvens. Nós, na terra, vemos as trevas ou a sombra, mas na verdade o sol continua a brilhar o mesmo esplendor de sempre.

A senda espiritual leva-nos da sombra para a luz. Nós a trilhamos mudando o centro de nossa consciência de uma mente que é separativa, possessiva e dominada pelo desejo e a paixão, para uma que é compassiva, pacífica, intuitiva e que pensa e sente em termos de uma vida maior. Neste sentido, a humildade não é a morte dos sentidos e da mente, mas sua iluminação, o que leva a um crescente refinamento das percepções – uma mudança da vida egoica e da dualidade, para a unidade consciente. Isto pode ser visto como uma mudança do movimento centrípeto para o centrífugo. Começa com a indiferença aos desejos e anelos dos corpos, mas não negligência esses corpos. Cresce pela dissolução da estreita esfera de nossos pensamentos limitantes, auto-protetores, e que se auto-projetam.

Se uma folha cai num pequeno córrego ou num rio, ou num lugar consagrado a Shiva ou num cruzamento, que efeito benéfico ou maléfico isto causa à árvore?

O que se aplica à árvore e às suas folhas deve começar a ser aplicado ao elogio e à recriminação, aos chutes e às carícias que recebemos em nossa vida diária.

Rumi, um místico Sufi do século III escreveu:

As lamparinas são diferentes, mas a luz é a mesma; ela vem do Além. Mas se continuas olhando para a lamparina, estás perdido,pois então surge a aparência de número e pluralidade. Fixa teu olhar na luz, e serás retirado do dualismo inerente ao corpo finito.

É essa fixação do olhar na Luz – na Vida Una que tudo permeia– que purifica nossas percepções, ampliando assim nossa visão. A disciplina requerida é bem conhecida: auto-purificação, estudo, e reflexão profunda, eo serviço altruísta que se  segue naturalmente. Cada um desses passo é importante, mas são apenas passos e não fins em si mesmos, como às vezes se pensa. Por exemplo, o aprendizado e o desenvolvimento dos poderes de compreensão são necessários e úteis, mas não devemos permitir que se tornem desproporcionalmente importantes.    Com relação a isto, lembro-me de uma anedota na vida de Shankaracharya. Numa manhã bem cedo quando seguia para o Ganges para o banho diário e as orações, ele ouviu um estudante repetindo em voz alta as regras da gramática sânscrita. Shankaracharya sentiu que aquela decoreba naquela hora gloriosa era perda de tempo que poderia ser mais bem usado para contemplação sobre as verdades da vida ou da Natureza. E assim ele compôs o que é chamado de O Hino da Renúncia cuja última estância diz que sem jnana, ou sabedoria, nem o estudo nem o aprendizado assegurará a liberdade de alguém, mesmo em cem vidas. As regras de gramática não trazem proveito algum –contempla Govinda, o Eu Supremo que reside em tudo.

Quando a sabedoria começa a raiar, chega a Luz– a luz da compreensão e da compaixão, da unidade, da síntese e do amor que vê não as peças individuais, mas o quadro total no qual as peças se encontram.

A realização de nossa divindade – mesmo que seja parcial, pode não ocorrer durante muito tempo, mas na medida em que tentamos viver uma vida mais pura, e portanto menos egoísta, podemos pelo menos começar a entender que a felicidade duradoura jaz na consciência,e não na satisfação dos nossos desejos.

São os indivíduos que fazem o mundo e cada um pode, se tentar conscientemente, tornar-se um agente na moldagem de um mundo mais belo. Então, somos privilegiados como líderes no movimento rumo a um futuro no qual a vida no planeta será vivida em harmonia, em cooperação e paz, interna e externamente.

Tudo que é feito por nós no mundo visível baseia-se ou surge da maneira como trabalhos com os  nossos sentimentos e pensamentos. Que cada um de nós afeta os outros pelos seus pensamentos não é mais apenas uma noção filosófica, aparece como fato da ciência moderna no domínio da física das partículas e da fisiologia.

Por exemplo, descobriu-se experimentalmente que a observação envolve participação. O universo começa a ser visto como um todo participativo e interligado no qual todos afetam todos os demais. Carl Sagan no seu famoso livro Cosmos afirma: "A história humana pode ser vista como o lento despertar da percepção de que somos membros de um grupo maior. . . . Alargamos o círculo daqueles a quem amamos .  . . . Se temos que sobreviver, nossas lealdades devem ser ampliadas ainda mais para incluir toda a comunidade humana, todo o Planeta Terra".

Cada um de nós pode contribuir um pouco para a plena iluminação deste planeta por meio de nossos pensamentos positivos, amorosos, úteis, pois os pensamentos estão na raiz da fala e da ação. É a mente que guia o movimento de nossos lábios, mãos e pés.

Alguém pode talvez perguntar o que pode fazer sozinho. A vida adulta média dura talvez 40 anos, consistindo de 14.600 dias. Durante doze horas do dia a pessoa está desperta,seu cérebro está funcionando e produzindo correntes mentais – boas, ruins e indiferentes. Pode-se ver então quanto uma pessoa pode contribuir para a atmosfera mental que influencia as ações da humanidade. E à medida que trilha o caminho da pureza e do altruísmo, seus pensamentos, e radiações benéficas, tornam-se cada vez mais agudos, mais fortes, mas poderosos. Quanta claridade, então, cada um de nós pode doar ao mundo em geral e mais particularmente àqueles com quem está em contato mais íntimo na família, na vizinhança, no escritório e no ciclo social!

O importante papel de um indivíduo tem sido realçado por muito santos e sábios. J. Krishnamurti diz:

. Se você fizer uma transformação básica em si mesmo, então afetará não apenas aqueles que estão próximos de você, mas toda a consciência do mundo.

E Ramana Maharshi observou que um atma-jnani ou uma pessoa auto-realizadanão precisa fazer nada para beneficiar o mundo. Sua poderosa influência espiritual é capaz de causar,silenciosa e imperceptivelmente, um grande bem a todos.

Como dissemos, todo o ensinamento espiritual enfatiza que devemos reduzir nós mesmos a zero, desenvolvendo a abnegação e  o desprendimento. Contudo,zero é um fator muito significativo e um grande poder quando colocado junto a qualquer número, pois pode elevar um simples dígito ao infinito. Isso é verdadeiro também em relação ao nosso eu inferior – o corpo físico unido aos pensamentos e sentimentos. Incompreendido e mal usado, o eu inferior é a morada das trevas; se for corretamente percebido e usado, pode levar a pessoa à glória e ao esplendor infinitos. Portanto, a relevância de nosso eu inferior não deve ser perdida de vista. Embora os ensinamentos digam que os corpos devem ser subjugados, dizem também que uma encarnação humana – uma vida física – é um bem necessário para a salvação. É o campo no qual a batalha pela luz deve ser travada e vencida.

Existe também uma correlação misteriosa entre o corpo físico e o Atma, que é o espírito divino no homem. Portanto, a sombra está ligada à luz. A Natureza é muito frugal e não cria nada desnecessário. A Senhora Blavatsky diz n’ADoutrina Secreta que para se tornarem divinos, deuses plenamente conscientes, as inteligências espirituais primevas devem passar pelo estágio humano.

Na busca da compreensão dessa natureza dual do homem –sombra e  luz – jaz nossa oportunidade e também nossa responsabilidade.

Texto retirado da Revista Sophia - edição 43

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